Três segundos, livro de contos e primeira publicação literária de Heitor Victor, apresenta-se como uma obra de investigação sobre a condição humana diante do tempo. Embora um livro de contos possa ser lido como ensaio para uma narrativa de maior fôlego, o gênero também se consolidou como espaço autônomo de experimentação literária. A obra se situa justamente nesse ponto de tensão: é a primeira investida consolidada do autor no campo literário e, ao mesmo tempo, revela um projeto estético próprio, que transita do clássico ao contemporâneo para examinar aquilo que permanece humano para além das circunstâncias históricas.
Embora um fio condutor não seja uma exigência obrigatória em um livro de contos, Três segundos constrói sua unidade a partir do diálogo entre passado e presente. A obra se apresenta, ao mesmo tempo, como estória, história e História: desde o primeiro conto, estabelece um conflito entre o ser que se compreende no tempo e aquele que, aparentemente, apenas vive. Esse confronto entre consciência histórica e experiência imediata permite ao leitor questionar sua própria compreensão de si. Nos contos seguintes, a narrativa percorre diferentes temporalidades para demarcar dores, medos e impasses que atravessam a tradição cultural do Ocidente, especialmente por meio de suas obras de arte.
Essa proposta aparentemente ahistórica revela-se, com o correr da obra, quase contraditória: em cada narrativa, evidencia-se o quanto o humano permanece, há tempos, imutável em alguns aspectos. Do medo do guerreiro a caminho da guerra ao medo contemporâneo de acordar para mais um dia, há uma zona comum de fragilidade que atravessa épocas distintas. Nesse percurso, a produção cultural — como a Patética, de Tchaikovsky — surge como válvula de escape e como linguagem capaz de conduzir os narradores pelas obliquidades do mundo. Assim, Três segundos resgata uma literatura mais humana e menos imediatamente social: em meio a sectarismos e polarizações, a obra aproxima seus personagens e leitores por meio de dores compartilhadas, sobretudo a dor de estar vivo e de viver as contradições do sentimento humano.
São ao todo nove contos, que partem da Grécia antiga até os arranha-céus do nosso tempo, uma coisa permanece, a incerteza do humano acerca de si mesmo. A obra, portanto, possibilita uma reflexão acerca daquilo que temos de singular, trazendo de volta o debate inconcluso do pós-guerra acerca do quanto nossas semelhanças são maiores e mais presentes do que nossas diferenças. Na troca de olhares que dura apenas três segundos — entre um professor universitário e um homem em situação de rua, entre guerreiros no campo de batalha — há muito mais em comum do que a aparência inicial permite supor.